É preciso valorizar os pequenos gestos e resgatar o significado que há nos beijos
Em nossa cultura, saudar as pessoas com um beijo é um costume
restrito ao nosso círculo de convívio. Não saímos por aí selando rostos
com os estalidos de nossos lábios. Geralmente, reservamos essa forma de
carinho às pessoas que, ao menos, já têm nossa amizade.
Além disso, beijamos quando somos apresentados a alguém (um ou dois
beijinhos no rosto); também beijamos as crianças próximas de nós, por
causa de sua pureza, graciosidade e fofura.
O beijo expressa proximidade e gratidão, demonstra querer bem,
manifesta perdão, sela pedidos de desculpas. Beijo é reverência nas mãos
ungidas do sacerdote. São Paulo recomendava desde as primeiras
comunidades: “Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo” (Rm 16,16).
Estar entre os escolhidos do Mestre foi o que possibilitou a Judas entregá-Lo com um falso sinal de afeto. “Judas, com um beijo tu entregas o Filho do Homem?” (Lc 22,48).
Beijo é sinal de intimidade, pois aproxima, torna visível o sentimento
de admiração e amor, permite que desabroche dos lábios a afeição gestada
no coração. Nisso tudo, vemos o quanto nós valorizamos o beijo.
Por que, então, o maior ritual do beijo, os “lábios nos lábios”, o
signo de amor apaixonado, é tão banalizado nos dias de hoje,
transformando-se em sinal de poder de conquista? O beijo, que antes era
reservado aos apaixonados, é distribuído como mercadoria barata,
simplesmente para satisfazer o ego e para provar para si mesmo e para os
companheiros que se é um sedutor.
Beijar na boca
Na verdade, há uma sacralidade no ato de “beijar boca a boca”, este
existe para despertar amores e alimentar o desejo de ter o amado.
O livro sagrado Cântico dos Cânticos inicia-se assim: “Que ele me
beije com os beijos de sua boca!” (Ct 1,2). Exegetas (estudiosos da
Bíblia) veem todo o livro do Cântico dos Cânticos como a poesia do amor
de homem e mulher, no sentido de um povo por sua terra ou de uma mulher
por um homem, ou mesmo de Deus por Sua Igreja, Seu povo.
A metáfora da união do Divino com o humano, mostrada no amor de um
casal, é inicialmente celebrada com um tocar de lábios, como se o
Espírito Santo fosse transferido não mais pelo sopro nas narinas do ser
humano (cf. Gn 2, 7), mas por um gesto maior de afeto.
O beijo na boca é um selo de autenticidade do amor entre homem e
mulher, mas, na sociedade de hoje, em que mudanças acontecem a toda hora
e tudo se reduz à esfera do consumo, diminuímos seu significado. Os
jovens vivem em um ritmo frenético de competição, aceleram seus
pensamentos e suas atitudes e, motivados pela velocidade das
transformações e pressionados a corresponder a tudo isso, procuram
ansiosamente novos estímulos para suas emoções.
Consequências do amadurecimento precoce dos adolescentes
As experiências de seus pais já não lhes servem e, às vezes, vivem,
aos dez ou onze anos de idade, o que a geração anterior só foi conhecer
aos dezoito, dezenove. Buscam muito antes do seu amadurecimento pessoal,
as sensações de maior amplitude a que um ser humano pode chegar, pois
quase tudo que é próprio do adolescente já está experimentado,
desgostoso e vazio.
A descoberta do amor e as primeiras emoções provocadas pelo sexo
oposto, que são próprias dessa fase, são como que devoradas no início da
pré-adolescência ou talvez ainda no fim da infância; e então o jovem
parte para o final, busca o sexo, impulsionado pelas facilidades com que
consegue as coisas.
O resultado é uma geração que não vive as fases de desenvolvimento da
vida afetiva em sua profundidade, com o conhecimento e o mistério que
cada etapa de um namoro equilibrado pode proporcionar.
Resgatar o verdadeiro significado
Os sentimentos humanos são nossa forma de expressar quem somos e quem
seremos, e estão tirando do jovem de hoje o direito de chegar a ser
alguém fora dos padrões que a mídia e a indústria padronizam para seus
interesses.
Banalizou-se o beijo, a castidade e diversos outros valores
importantes na construção dos futuros homens e mulheres, que em breve
liderarão nosso mundo. É preciso valorizar os pequenos gestos e resgatar
o significado que há nos beijos e nos eventos do namoro, tornando-os
rituais que fisicamente aproximam quem está cada vez mais presente no
coração. Somente dessa forma é possível navegar contra a maré que quer
nos arrastar para longe da maior vocação humana: o amor.
Mais do que nunca, é preciso acreditar no respeito, na verdade e no
amor. Amar é simples no ser, mas requintado no servir, porque é gesto e
vontade de ser melhor para alguém que fará parte da sua existência.
Namore, beije, conheça, encare a outra pessoa como um mistério a ser
desvendado, aprofunde a amizade, seja parte da vida do amado e, em pouco
tempo, você terá toda a confiança dele. Tenha sentimentos puros,
acredite na pessoa e ajude-a a se descobrir nas mais belas aventuras
interiores. Direcione sua afetividade, a capacidade de amar que há em
você, para onde vale realmente a pena investir.
Seja curado por seus relacionamentos e não destruído por eles. Não
aceite ser vítima de si mesmo, sendo um refém do que o mundo nos impõe,
ensinando o que é errado como se fosse uma virtude. Corresponda à força
do amor que existe em você.
Se for para beijar, faça do seu beijo um gesto único, santo e
restaurador. Pare de “ficar” por aí tornando seu beijo “mercadoria
barata”. Beijar a pessoa que se tornou especial para você terá sempre o
gostinho de primeiro beijo. Texto extraído do livro ‘As Cinco Fases do Namoro’
Sandro Arquejada
Sandro Aparecido Arquejada é missionário da Comunidade Canção Nova.
Formado em administração de empresas pela Faculdade Salesiana de Lins
(SP).
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